“Quem conhece a tempestade, enjoa na calmaria.”
Era assim como ela se imaginava naquele cenário monótono, sem cor, sem vida. Sem graça. Ela sorria, os dentes amarelados refletindo cada um daqueles rostos sem expressão. Os olhos pesados como globos na sua palidez, o cabelo caído em leque, desviando a atenção dos seus gestos inseguros e seqüenciais. Na boca, um cigarro pela metade, as cinzas caindo pela roupa recém-passada, o filtro escuro em contraste com os lábios sem cor. Ao seu lado, Laura. O rosto bronzeado com o mesmo desinteresse, emoldurado pelos cabelos castanhos caindo em cascata pelas costas esguias.
Na mesa, ao lado delas, meia garrafa de vodka barata, dessas que se compra em qualquer pocilga. E nos rostos, a expressão de quem já viu de tudo, mas espera ainda mais. O telefone toca. O relógio de pulso digital indicava seis da tarde, mas podia-se perceber sem dificuldades a maquiagem pesada brilhando junto ao Sol poente. Frases entrecortadas, um sorriso de lado. Já era o bastante. Levantaram-se em sincronia, o dinheiro amassado espalhado pela mesa, sob o cinzeiro transbordando. O táxi já as esperava, e as levou pra o primeiro ponto de escape que encontraram, uma festa qualquer.
Não conheciam ninguém. No auge dos seus dezessete anos, entretanto, isto não era problema. Desceram na entrada, como se realmente quisessem saber das pessoas que encontrariam ali. Aos primeiros passos, uma dose de tequila, outra e mais outra. E apresentaram-se, os mesmo sorrisos de conveniência se fazendo ver. Pedros, Gabriéis, Alexandres, Bernardos, Vítors...: os olhos amendoados de Laura se perdiam em cada um. As doses já bem acentuadas, e um novo sorriso, misto de Eva e Maria, enfeitava cada centímetro de seu rosto talhado a mão. Júlia permanecia séria, embora, no intimo, estivesse imaginando coisas sobre cada um dos personagens de sua comédia particular. Estampava-se nela a repreensão, apesar dos olhos agora doces brilharem, receptivos.
- É assim que se faz a vida! Ultrapassando todo o entendimento! – A voz de Laura ecoava, num timbre agudo e melodioso. Mal sabia ela que, por trás das palavras dadaístas de Lispector, havia um significado que só mais tarde viria a entender. Afinal, parafraseando-a com a mesma desenvoltura da protagonista, “os fatos são sonoros. O que importa são os silêncios por trás deles.” Silêncio este que Laura ainda não estava pronta ou disposta a escutar.
- Mas quem quer entender? – Exclamou Júlia, a postura mais despreocupada, um cigarro enfeitando os dedos finos, o esmalte vermelho descascando aos poucos. – A gente chegou num ponto em que a conseqüência é a razão. E é essa a graça. – Se ela fazia noção do que dizia? Não. Mas de alguma forma, sentia aquilo falando em seu lugar. E gostava. Do mesmo jeito que gostava quando, ao fechar os olhos, a única coisa que conseguia fazer era rir. Mas odiava o silêncio. Não o silêncio propriamente dito, pois a música contagiava cada parte de si; ela odiava o silêncio que roubava a cena quando olhava ao seu redor e percebia toda a atração infundada, como toda atração deve ser, entre tudo e todos. Ela não era assim. Retia-se ao seu imaginário, enquanto perdia-se em mais uma garrafa de cerveja quente.
- A graça é só perceber que teve graça em lembrança. – Os olhos castanhos de Laura encontraram os amarelados de Júlia, e sorrisos que dispensam palavras realçaram seus lábios rosados, desses que é quase impossível não sentir vontade de tomá-los por nossos em beijos sem fim. – No fim, não faz diferença. – A voz rouca de Júlia se fez ouvir no ruído desagradável que era a juventude.
2 comentários:
Minha fia! Como é que você esconde esse seu talento de mim? Tô babando, honey.
Ui, tem meu nome no tezto ;D Sou importante. Amei. É a sua cara. Meus comentários são um lixo, mas são sinceros. Aê.
Jura que é só isso? Eu quero ler mais! Posta!Posta!Posta! Juro que não sabia que você escrevia tão bem. Estilo apaixonante, bem Lispector mesmo. E um pouco de Ligya Fagundes Telles.
Postar um comentário