quinta-feira, julho 30
...
Eu me perguntei se ela chorava. Se por trás daquelas palavras cruas, sinceras, inocentes, ela chorava e não sabia o que dizer. Se aquilo estava guardado há tanto que as palavras aglomeravam-se, sem sentido, e se ela tinha que reviver sua dor tentando organizá-las dum modo inteligível. Eu quis dizer que a entendia, que não ligava de interpretar suas palavras, tentar entendê-las, poupá-la daquilo tudo. Me perguntei se ela chorava, e se as lágrimas caíam tão delicadas por seu rosto de boneca, os olhos grandes que tanto me fascinaram, úmidos, tristes, olhando sem rumo por tudo aquilo que a lembrava do motivo da sua dor. Se as lágrimas percorriam tão cruéis - e ao mesmo tempo doces, numa sinceridade tranquilizante, de um ódio tão ingênuo que era quase amável - o mesmo caminho que eu tanto desejara percorrer. Se feriam os olhos, as bochechas, o nariz delicado e ligeiramente retroussé. Se morriam na boca, invadindo aqueles lábios rosados e pequeninos, agora curvados em um sorriso triste, me fazendo inveja, me fazendo sentir junto dela. Me perguntava o que dizer, se eu conseguiria mentir pra ela com minhas promessas otimistas, com falsas ilusões de que ia ficar tudo bem. Ao invés disso, de iludir a ambas, eu fui sincera. Seca, ácida, quase cruel. E me perguntei se minhas palavras feriram ainda mais toda aquela delicadeza não mais imaculada, se seus olhinhos molhados se alegraram ou se foi mais uma das muitas coisas ruins que já ouviu. E aí eu desejei não ter dito nada, não ter pensado nada - só quis ter meus braços ao redor de tudo aquilo que ela é, sua imperfeição complementando a minha e seu sorriso triste me mostrando a beleza no seu silêncio e na sua confusão.
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário