sexta-feira, setembro 26

Sobre cortinas puídas

"Perdi-me dentro de mim"

Quando me fui, já não era mais eu. Já era tarde, e as poucas luzes ainda acesas na cidade iluminavam todos aqueles rostos de uma forma estranha, mas que nos davam gamas de cores que não enxergaríamos sem toda a escuridão. Éramos, na nossa inocência, donos das sete cores do arco-íris nos nossos olhos cansados, pupilas dilatadas e o foco no horizonte, que só fazia se afastar de nós a cada minuto apressado que só fazíamos desperdiçar. As luzes dançavam, nós telas brancas, em um ritmo amargo, jogando suas flores primaveris nos nossos corpos frágeis, que a chuva fez questão de lavar. Eu, assim como os outros, tinha meus olhos coloridos voltados para um horizonte que há muito eu parei de ver. Um Horizonte tão distante que me fazia andar, sem rumo, até que meus pés fossem longe demais, tentando descobrir até onde longe demais pode ir.

“porque eu era labirinto”

Sentamos, observando desfocados o último ônibus da noite passar diante de nós, olhando-nos tal qual pessoas olham um teatro em ruínas – as cortinas já estão puídas, mas ainda se sentem os espetáculos dançando, solenes, as valsas de palmas que outrora irromperam dali. Encaravam-nos no sinal, se perguntando se escondíamos palhaços, mágicos, bailarinas ou domadores de feras por debaixo da nossa própria cortina velha. E nós, alheios a tudo aquilo, nos observamos em nossas multicores, sorrindo sem ter motivo para sorrir. Me voltei ao Horizonte, no rosto os olhos de quem não parece ligar. Mas eu ligava. E quando voltou seus olhos foscos para mim, eu senti as luzes que antes me iluminavam se apagando, eu de repente vulto, a escuridão das cores fundidas percorrendo, vadias, cada esquina, rua e avenida de mim.

“E hoje, quando me sinto”

Me levantei, corpo parecendo mais pesado do que conseguia suportar. Olhei ao redor, falsos olhos de quem quer encontrar um caminho, propósito ou causa a qual se aprisionar. Andei, seguindo o sentido das luzes, até que todos nós estivéssemos diante de algo decadente o suficiente para nós. Não foi difícil. A cidade à noite é tentadora, e basta escolher a causa mais conveniente para encontrar um motivo para continuar perdido. Enquanto pediam uma dose, me dirigi ao banheiro. Não havia luz, mas pude me encarar no espelho. E eu, cara lavada, olhos vermelhos, não me reconheci. Não usava maquiagem, mas ainda assim, havia algo borrado, escorrendo junto às gotas de chuva pelo rosto sem expressão. Rosto que me era estranho, antes focado, agora olhos distantes me mostrando mais do que conseguia lembrar de mim.

“é com saudade de mim.”

Ainda estavam todos lá, do mesmo jeito que os deixei. As garrafas, no entanto, estavam vazias. Em nós, as cortinas já se despedaçavam, e cada confissão nos revelava o palhaço, mágico e domador que ofuscamos com as luzes da cidade. Nossos olhos já não as refletiam mais. Refletiam somente aquilo que tentamos esconder, buscando desesperados a escuridão de outros olhos, outros espetáculos para se entregar. Mas eu não queria me entregar. Levantei-me, acabei com meu copo e atirei alguns trocados na mesa. E junto às moedas, deixei também minhas luzes, minha cortina puída, meu espetáculo já não tão mais silencioso para trás. Deixei o Horizonte, deixei a parte podre de mim. Me deixei. E, alguns passos depois, me quis de novo. Assim, podre como sou. Parte cortina, parte bailarina. Mas eu não voltei para me resgatar. Quando me fui, já não era mais eu.



Era prum concurso de redação, mas acabou que nem mandei... o poema é do Mário de Sá Carneiro, dá pra ver o integral aqui. :)

4 comentários:

Yago Sant' Anna disse...

devia ter mandado
;D

Alex disse...

devia ter mandado
;D
[2]

ana disse...

vão se fuder ;*

Laura Veridiana disse...

Se mandasse ia ganhar. Te adoro assim, bailarina, cortina, cubos de sonho num copo de vodka. Nossa, isso dava um depoimento. ;)